quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Mãos Frias




O prazer que me não dá, aquecer as minhas mãos enregeladas pelo frio que me assola o corpo e a alma.
Não pelo facto de estas ficarem quentes, não...
A efemeridade do momento em que a temperatura delas transita violentamente do frio ao quente,
tão espontaneamente...
A satisfação de sentir aquele lapso inigualável nem que por um milésimo da mais ínfima
partícula do tempo.
Ah...o Rei de mim que me torno por tão curto Eu. Sem Reino para reinar nem coroa para vangloriar.
E a dor de a já não ter pesar sobre meus ombros. O que me custa o momento permanecer interdito nos
cárceres do tempo. Não que o pudesse ou fosse minha vontade libertá-lo. A liberdade em consonância com a
eternidade banalizála-ia.
Por isso mesmo choro... Num misto de prazer e perda por tão vago momento de sentir.
Mãos quentes...

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Tempos




Tic...Tac...
Tic...Tac...
Tic...Tac...
Tic...Tic...Tic
Mil mãos revoltas estrangulavam desmedidamente tão esguio pescoço. Enquanto isto, milhares de milhões de agulhas irrompiam sua sensível pele macia provocando-lhe uma dor delicadamente aguda.
Sete sóis incineravam seus claros e surpresos olhos. Ali estava ele cotorcendo-se de dor, de pânico, mas maioritariamente, de dúvida e espanto...Nisto, vasculhava suas memórias vagas, nesses pensamentos desertos apenas ouvia o gotejar: "tic...tic..tic..."Ingénuo, inocente, aquela criatura recém-nascida despediu-se delicadamente das agulhas, soltou as mãos que privavam os seus desesperados pulmões de ar. Soltou-as gentilmente, uma por uma.
Por fim, vendou-se com um doce turbante negro. E despediu-se, do sofrimento, da angústia e do receio.
O não a um sorriso de lágrimas...
A natureza havia-lhe falhado, por isso mesmo desabrochou uma naturalidade virgem e exótica ...única...
Mas nada pára...Tac...

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Entranhas



E mergulhado no meu próprio ímpeto confuso ia irradiando especulações acerca da minha existência. Coisas absolutamente absurdas que trato como seriedades catalizadas pela demência. Ansioso e receoso da minha explosão de veracidades duvidosas que me atormentam o pensamento, constantemente, penso, escrevo, vivo sem saber, sem ter a noção e a certeza da mais pura realidade. Tão frustrado por não conseguir descrever aquilo que a mente mal acompanha...então estas linhas a léguas ficam do desespero gélido que penso ser único e por isso mesmo me assuste, tanto quanto me satisfaz...

Tiro No Escuro




Acordando de um doce pesadelo, fui perscrutando a penúmbra que irradiava de negro tudo que abraçava. Privado das cegas cores, nada mais podia fazer do que atirar-me de olhos vendados e de mente esperançada. Na verdade, não havia qualquer esperança. Não havia a mínima dúvida que mergulharia bem fundo na dimensão do sofrimento gélido. Apesar de ciente da verdade que teimava em recusar acreditar na minha aceitação, atirei-me... A dor não tardou a penetrar-me, no entanto não me perturbou tanto quanto a impassividade de nada fazer e de por momentos me achar e sentir invulnerável, impenetrável... Esperançosamente cego...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

O Casaco

Pendurado e sem vida, ali estava aquela peça rota.
Um casaco que já viveu experiências e tocou emoções.
Abandonado e esfarrapado ali se encontrava o inanimado objecto que outrora sentiu as gélidas gotas de chuva penetrarem-lhe as fibras. O casaco que sentiu tão forte e intenso abraço, tão alta e dolorosa queda.
Aquele tecido castanho onde o fumo se havia entranhado e que tantas lágrimas salgadas afogou. Aquele velho inútil e solitário casaco que outrora tocou sentimentos e acariciou milhares de peças de vida, pendia agora no cabide de esquecimento como simples desperdício.
Afinal de contas..era só um casaco.

Imagem capatada pela minha amiga Luísa. A ela, um tremendo obrigado por me abrigar do frio que me assolava o corpo e o espírito. Serve-me na perfeição.

Dás-me Poesia?


Então? Dás-me poesia? Essa tua bela e doce poesia que não mais vê senão arte e vida.
E que poesia é essa que arde de amor? Poesia poesia...serás tu sincera?
Sorte da poesia que na Poesia não se olha a polígrafos.
Nada interessa na veracidade com que arte é feita. Apenas como esta é vivida. Tão falsa poesia de verdade.
Então? Dás-me essa tua poesia?

Eu, Tu, Nós...


Da minha paradoxal existência retiras apenas a leveza da memória. O nada de meus dados vazios. De mim, fonte não fazes, essência não bebes. De tudo exótico e virgem que te posso conceder, apenas a concha, forte, feia e fria, deleita teus grandes e inocentes olhos. Talvez o medo te entorpeça a bravura e a coragem. Quem sabe, não és tu criatura sana. Então, miras-me, aproximas-te no teu "Eu" afastado e podendo tocar-me, sussurras-me à distância de um grito. Então, de minha incógnita profundidade, caio para o topo da ingenuidade supérflua e efémera.
Digo eu que tenho em mim meu reflexo quando na verdade, sou eu prisioneiro do meu "outro". Ao espelho, repito para mim, e a mim me ouço em desespero. Todos querem saber quem "sou",mas ninguém "nos" quer conhecer.