quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Entranhas



E mergulhado no meu próprio ímpeto confuso ia irradiando especulações acerca da minha existência. Coisas absolutamente absurdas que trato como seriedades catalizadas pela demência. Ansioso e receoso da minha explosão de veracidades duvidosas que me atormentam o pensamento, constantemente, penso, escrevo, vivo sem saber, sem ter a noção e a certeza da mais pura realidade. Tão frustrado por não conseguir descrever aquilo que a mente mal acompanha...então estas linhas a léguas ficam do desespero gélido que penso ser único e por isso mesmo me assuste, tanto quanto me satisfaz...

Tiro No Escuro




Acordando de um doce pesadelo, fui perscrutando a penúmbra que irradiava de negro tudo que abraçava. Privado das cegas cores, nada mais podia fazer do que atirar-me de olhos vendados e de mente esperançada. Na verdade, não havia qualquer esperança. Não havia a mínima dúvida que mergulharia bem fundo na dimensão do sofrimento gélido. Apesar de ciente da verdade que teimava em recusar acreditar na minha aceitação, atirei-me... A dor não tardou a penetrar-me, no entanto não me perturbou tanto quanto a impassividade de nada fazer e de por momentos me achar e sentir invulnerável, impenetrável... Esperançosamente cego...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

O Casaco

Pendurado e sem vida, ali estava aquela peça rota.
Um casaco que já viveu experiências e tocou emoções.
Abandonado e esfarrapado ali se encontrava o inanimado objecto que outrora sentiu as gélidas gotas de chuva penetrarem-lhe as fibras. O casaco que sentiu tão forte e intenso abraço, tão alta e dolorosa queda.
Aquele tecido castanho onde o fumo se havia entranhado e que tantas lágrimas salgadas afogou. Aquele velho inútil e solitário casaco que outrora tocou sentimentos e acariciou milhares de peças de vida, pendia agora no cabide de esquecimento como simples desperdício.
Afinal de contas..era só um casaco.

Imagem capatada pela minha amiga Luísa. A ela, um tremendo obrigado por me abrigar do frio que me assolava o corpo e o espírito. Serve-me na perfeição.

Dás-me Poesia?


Então? Dás-me poesia? Essa tua bela e doce poesia que não mais vê senão arte e vida.
E que poesia é essa que arde de amor? Poesia poesia...serás tu sincera?
Sorte da poesia que na Poesia não se olha a polígrafos.
Nada interessa na veracidade com que arte é feita. Apenas como esta é vivida. Tão falsa poesia de verdade.
Então? Dás-me essa tua poesia?

Eu, Tu, Nós...


Da minha paradoxal existência retiras apenas a leveza da memória. O nada de meus dados vazios. De mim, fonte não fazes, essência não bebes. De tudo exótico e virgem que te posso conceder, apenas a concha, forte, feia e fria, deleita teus grandes e inocentes olhos. Talvez o medo te entorpeça a bravura e a coragem. Quem sabe, não és tu criatura sana. Então, miras-me, aproximas-te no teu "Eu" afastado e podendo tocar-me, sussurras-me à distância de um grito. Então, de minha incógnita profundidade, caio para o topo da ingenuidade supérflua e efémera.
Digo eu que tenho em mim meu reflexo quando na verdade, sou eu prisioneiro do meu "outro". Ao espelho, repito para mim, e a mim me ouço em desespero. Todos querem saber quem "sou",mas ninguém "nos" quer conhecer.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Peça em meio acto.


O acto acabara de se iniciar.O público este, esperava desesperando e desconhecendo que fazia parte da peça.O Pano abre e o orgasmo desabrocha, a loucura tinge a realidade de utopia.As peças movem-me sem regras mas como que coreografadas. A morte e a alegria dançam qual casal apaixonado sedento de sexo e paixão desenfreada. No meio disto o louco chora...estava salvo...

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Relatos de um Hospício!




Quem disse que esta órbita em que todos habitamos não é quadrada?Pois eu o desminto em nome do Cubismo que a todos nós toca e foge, a todos excepto ao lunático que depois de ser tocado, não teve a inteligênciade olhar para o lado errado, conseguindo assim ver o incerto lado correcto que se disfarça não existindo.

Ordenem-me que me cale, e não me calarei. Obriguem-me a falar, e nem uma palavra soltarei. Podem-me torturar, mas não me irá doer se souber que nada vos dei. Façam-me chorar e sorrirei. Os vossos desejos não concretizarei. Desejem-me a morte e sobreviverei. E mesmo que me tirem a luz, verei, que nada disto tem sentido...

Parem de comer, afinal de contas, o que são vocês? Não me respondem? Não me ouvem? Nem sequer me vêm? Eu sei que não... sei que estou só numa câmara abafada, isolada e vazia a transbordar de mentes vagas como zombies à procura de um brilho de ouro falso que não é mais do que um arco-íris que se derrete quando o possuímos. Mas nem este erro vos faz abrir os olhos e a mente? Ainda se destroem e lutam pelo reflexo daquele brilho distante? Mas afinal o que querem vocês? O que quero eu?

Nada mais nada menos
Que centenas, milhares, milhões
De corpos que me aguardam
E ardentemente me desejam.
Observo-os timidamente,
Assemelham-se a bichos pasmos...
E idealizo atrevidamente,
Centenas, milhares, milhões de orgasmos...
Explodem,Lutam,Rasgam-me,Querem-me,Possuem-me,Queimam-me,Usam-me,Devoram-me,Desmembram-me,Amarram-me,Partem-me,Partilham-me,Satisfazem-me,Compem-me,Lambem-me,Beijam-me,Amam-me,Consomem-me,Matam-me...
Agora, não resta nada,
apenas estilhaços de uma confusão carnal consentida e procurada!